Sábado, 07 de Novembro de 2026
24°C 39°C
Lucas do Rio Verde, MT

A Vida é uma causa perdida

Por Leonardo Borralho Estevens Cames

07/11/2026 às 17h18
Por: Redação Fonte: Leo Borralho
Compartilhe:

A Vida é uma causa perdida

Nos meus tempos áureos de uma juventude isolada em um quarto, em meio a videogame, músicas do TOP 10 da MTV e alimentos pouco saudáveis, eu não parava nem um minuto para me questionar sobre os motivos que me faziam viver, algo relevante para muitos e pouco importante para outros, pois eu apenas queria terminar um jogo de cinco reais que comprei de forma suspeita em uma barraca do camelô de Cuiabá.

Entretanto, percorrendo minha vida adulta e observando os mais diversos acontecimentos externos à minha intimidade, percebi as complexidades que a sociedade estabeleceu em suas relações, tentei entender por que essas coisas acontecem e tomei um lado. Com isso, sentia (e sinto, muitas vezes) uma sensação de impotência frente à força abrupta e colossal dos movimentos políticos, econômicos e sociais.

Durante esse período, tentei por diversas vezes compreender tudo isso e o meu papel nesse jogo de tabuleiro global. Logo, busquei conhecimento dos mais diversos tipos: religiosos, artísticos, jurídicos, sociais e, claro, filosóficos.

Em um desses momentos de devaneios filosóficos, deparei-me com um indivíduo sensacional chamado Antônio Abujamra, um grande diretor de teatro, ator, crítico e tantas outras ocupações fantásticas de alguém sedento por respostas.

O seu programa Provocações, na TV Cultura nos anos 2000, possuía um aspecto peculiar e pouco convencional em relação aos demais shows televisivos, desde sua música de abertura (feita por seu filho, André Abujamra) até a declamação de poemas e a pergunta irrespondível “O que é a vida?”. Logo em seguida, vinha uma das coisas mais falsas do programa, que era um abraço e fotos que ninguém jamais encontraria.

Várias pessoas tentaram responder a esse questionamento, mas uma delas, o filho André Abujamra, diz que “a vida é uma causa perdida” (frase essa lembrada pelo meu psicólogo em uma das nossas sessões), o que me causa espanto e, ainda assim, uma maior reflexão, pois, quando ouvi, lembrei imediatamente que Humberto Gessinger, na música “Dom Quixote”, diz “por amor às causas perdidas”.

Dito isso, refleti e cheguei às mais diversas conclusões: a vida vale a pena ser vivida pelos seus pequenos momentos de prazer; a morte é algo absoluto e inquestionável, então nada vale a pena e apenas podemos esperar; ainda que a morte ocorra e transforme a vida em uma causa perdida, que eu lute por amor até o fim; apesar dos aspectos colossais da sociedade, vou apenas entender a minha individualidade etc.

Talvez, se eu me sentasse em frente a um videogame, comendo doses absurdas de gordura hidrogenada, ao som de Acústico MTV do Charlie Brown Jr. (sem nenhum compromisso pro resto do dia), eu pudesse considerar esse momento como uma resposta sobre o que é a vida. E, ainda que ela possa ser vista como erro, poderei eu, amando o momento e lutando pelos mais diversos inimigos em uma TV de 14″, saber que é isso que importa, ainda que exista o abrupto movimento colossal de nossa sociedade.


Sobre o autor

Leonardo Borralho é advogado, procurador legislativo da Câmara Municipal de Lucas do Rio Verde (MT) e professor universitário nos cursos de Direito e Psicologia do Centro Universitário La Salle. Mestre em Tecnologias Emergentes em Educação, possui especializações nas áreas de Direito Administrativo, Advocacia Pública e Gestão Pública. Bacharelando em Administração Pública (UFMT).

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.